RETORNAR ÀS NOTÍCIAS - Nem salários de 2 mil euros resolvem crise de pessoal no mobiliário (e já há “esquemas de chantagem”)


02-11-2021 17:51h Vários

O sector do mobiliário nacional vive uma crise de mão-de-obra que já está a levar empresas a recusarem encomendas. A situação é denunciada pelo Jornal de Negócios que avança que faltam 5 mil trabalhadores nesta área, desde estofadores a marceneiros, passando também por maquinistas e serralheiros, entre outros.

A indústria dos móveis tem exportações da ordem dos 1,9 mil milhões de euros, segundo o Negócios.

“É um sector onde os salários são bastante elevados, porque apostou no valor acrescentado do produto, nos recursos humanos, no ‘know how’ para promover a internacionalização”, explica a este jornal o director executivo da associação do sector mobiliário (APIMA), Gualter Morgado.

Este responsável assegura que o sector “paga acima da média” e que “dificilmente encontramos hoje, por exemplo, um estofador a ganhar menos de dois mil euros limpos por mês“. Apesar disso, Gualter Morgado nota que não se encontram estofadores para contratar.

“Um esquema de chantagem”

O dirigente da APIMA também explica ao Negócios que houve um aumento das encomendas depois de, em Itália, a indústria de mobiliário ter sido “fortemente afectada pela covid-19“. Assim, verificou-se “uma alteração de geografias por uma série de clientes, que se viraram para Portugal, onde descobriram que temos o mesmo nível de qualidade ou até superior, e somos ligeiramente mais baratos”, salienta Gualter Morgado.

Além disso, “a falta de transporte internacional, numa determinada fase, levou a que as importações da Ásia caíssem vertiginosamente, com a maior parte dos distribuidores e redes ligadas à fileira casa a virarem-se para a Europa, assim como os Estados Unidos”, acrescenta ainda.

Esta situação de aumento de procura veio dar ainda mais destaque à escassez de mão-de-obra e começam a surgir cada vez mais casos de trabalhadores que entram no que Gualter Morgado chama de “um esquema de chantagem”.

“Todas as semanas, [os trabalhadores] chegam ao pé dos empresários e dizem: “Se não me pagas mais 100 euros, eu vou embora, pois tenho quem me ofereça mais.” É extremamente complicado”, desabafa o responsável da APIMA.

“Subsídio de desemprego desincentiva trabalho”

Guater Morgado também se queixa de “situações de abuso”, considerando que “muitos” desempregados são “chamados para trabalhar, para ganharem um salário, mas não querem ir trabalhar com horário normal porque, como têm facilidade em encontrar um trabalho extra, mantêm-se na situação de subsidiados”.

 

“O subsídio de desemprego também desincentiva o trabalho”, considera assim.

Entretanto, surgem queixas em algumas empresas de que “há multinacionais inglesas que chegam cá e, em vez de criarem postos de trabalho, andam a roubar profissionais a outras empresas e com salários a peso de ouro”, como aponta uma fonte do sector ao Negócios.

O sócio-gerente da Pelcorte Estofos, Silvestre Carneiro, fala mesmo em “selvajaria”, em declarações ao jornal.

Não há estofadores disponíveis no mercado, andamos aqui a tirar uns aos outros”, acrescenta, por seu lado, também em declarações ao Negócios, o empresário Celso Lascasas, do grupo Laskasas.

Solução podem ser trabalhadores imigrantes

Em Paredes, onde o sector mobiliário tem grande expressão, a Câmara Municipal já está a trabalhar numa “solução conjunta” com as empresas que pode passar por apostar em “trabalhadores imigrantes”, como sublinha o presidente da autarquia ao Negócios.

“Uma das medidas que vamos apresentar às empresas pode passar por trazer trabalhadores para Paredes e criar as devidas condições para os acolher, assegurando estadias e a devida integração no mercado de trabalho português”, aponta o presidente da Câmara de Paredes ao jornal.

   ZAP //

02/11/2021