RETORNAR ÀS NOTÍCIAS - Muitos portugueses “fugiram” antes das restrições da Páscoa. Estudo alerta para quarta vaga em Maio


06-04-2021 14:52h Vários

Cerca de 11% da população viajou na quinta-feira para longe de casa, antes de entrarem em vigor as restrições para o período da Páscoa. Uma “fuga” que envolve “mais de 1 milhão de portugueses” numa altura em que um estudo alerta que “é muito fácil termos uma quarta vaga” já em Maio.

 

Com o ritmo actual de vacinação e com as medidas de desconfinamento gradual que preveem o regresso dos estudantes do Secundário às aulas presenciais já em Abril, há um sério risco de termos uma quarta vaga da pandemia de covid-19 em Maio.

O aviso surge num estudo feito por investigadores portugueses e holandeses que é divulgado pelo Nascer do Sol.

“Pensa-se que a abertura das escolas foi o principal indutor das alterações observadas no Outono de 2020, embora o aumento da socialização em espaços fechados associada ao tempo também terá tido um papel”, vinca o estudo.

“Se o relaxamento de medidas planeado para Abril de 2021 incluir a reabertura total das escolas depois da Páscoa e retoma do serviço interior nos restaurantes e bares, é bastante provável que o número de contactos médios na população atinja níveis semelhantes aos do Outono. Como consequência, poderá haver uma nova vaga de hospitalizações“, alertam os investigadores.

O estudo aponta assim que “um desconfinamento demasiado rápido, não sendo acompanhado por um processo de vacinação muito mais rápido do que aquele que tivemos até agora”, pode “levar a uma quarta vaga”, como refere o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, co-autor da investigação, em declarações ao Nascer do Sol.

“A menos que acelerássemos agora muito o processo de vacinação ou que façamos um desconfinamento com muitos cuidados e avaliando muito bem a situação a cada momento, esse risco existe”, aponta ainda o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

“Quem propaga o vírus é a população não vacinada”

Nesta semana, o RT atingiu o valor de 1,02 depois de ter estado nos 0,93 na semana de entre 17 a 21 de Março. Portanto, já há um crescimento da pandemia e é preciso considerar a expansão da variante inglesa, muito mais transmissível e já dominante no país.

“Temos uma maior protecção dos hospitais, mas as pessoas onde a vacinação incidiu não são os motores da epidemia. Quem propaga o vírus é a população activa, que não está vacinada”, alerta ainda Manuel Carmo Gomes.

O estudo mostra que “estamos numa situação que ainda não é segura, é frágil” e que “é muito fácil termos uma quarta vaga“, acrescenta o epidemiologista.

De acordo com o modelo apresentado no estudo, o aparecimento desta quarta vaga em Maio implicará que só ficará controlada por volta de 29 de Junho.

Acelerar a vacinação seria uma boa solução e o primeiro-ministro António Costa já prometeu que, em Abril, Portugal vai “triplicar o esforço de administração de vacinas”, com a inoculação de, pelo menos, 100 mil pessoas por dia.

Mas os investigadores lembram o atraso na entrega das vacinas e notam que a aspiração de acelerar o processo pode não ser viável.

Por outro lado, há também as dúvidas quanto ao tempo de protecção da infecção conferido pela vacina ou à sua eficácia na transmissão do vírus. Além disso, é preciso considerar outras variantes ainda pouco conhecidas.

Assim, sugerem que manter “algumas limitações nas actividades interiores e aulas online para alunos do Secundário pode ajudar a replicar a média de contactos do Verão de 2020, compensando a abertura das escolas” e permitindo um maior controle da pandemia.

O Governo vai reavaliar as medidas de desconfinamento na próxima semana, considerando os números e a evolução da pandemia.

“Mais de 1 milhão de portugueses dormiram fora de casa”

Com estes receios em mente, surgem dados preocupantes quanto à mobilidade dos portugueses antes da Páscoa – até considerando o que aconteceu com a reabertura do Natal que terá contribuído para o aparecimento da terceira vaga da pandemia em Janeiro deste ano.

Uma análise feita pela consultora PSE, que é especializada em ciências de dados, constata que 10,7% dos portugueses passaram a noite de quinta-feira, 25 de Março, a mais de 100 quilómetros da sua residência, conforme dados divulgados pelo Público e pela TSF.

Uma debandada que é associada à entrada em vigor das restrições de mobilidade para o período da Páscoa, nomeadamente da proibição de circular entre concelhos entre a meia-noite de 26 de Março e as 23:59 horas de 5 de Abril.

Mais de 1 milhão de portugueses dormiram na última noite fora de casa, ou seja, mais cerca de 400 mil que nos dias anteriores”, conclui o estudo da PSE como refere a TSF.

“Houve efectivamente um aumento estatisticamente significativo, mesmo que ainda aquém da normalidade pré-pandemia, das deslocações para passar dormidas e estadias fora da área de residência, numa subida de mais de 50% na comparação com o valor médio que costumamos ter ao longo da semana”, refere à TSF o especialista em mobilidade da PSE, Nuno Santos.

Os números da mobilidade rondam os 6,9% em dias anteriores.

“A população que circulou circulou muito mais, fazendo mais deslocações e perdendo mais tempo em deslocações”, aponta ainda Nuno Santos.

Susana Valente Susana Valente, ZAP //

27/03/2021